Palcos
Al Mansour - O guerreiro que morreu em nome do jazz
Carla Veríssimo

A 1.ª edição do Almanzor Jazz Fest ofereceu três noites palpitantes para os cinco sentidos, relatou-nos a cronista da Bússola. 

05 Fevereiro, 2022

Al Mansour - O guerreiro que morreu em nome do jazz

Entrou-me, de repente, pelo e-mail adentro: Almanzor Jazz Fest.

Almanzor.

Jazz.

Fest.

Qual ataque inimigo que chega no breu da noite, inesperadamente, sem que estejas a contar.

Almanzor.

Jazz.

Fest.

Fiquei ali a viajar por terras mouras, entre palácios, impérios, califas, cidades redondas, árabes e muçulmanos.

Até que acordei, já no Cine-teatro de Alcobaça - João d'Oliva Monteiro, com o som – não da espada – mas do trombone de Rui Bandeira, que num significado cósmico, mostra à cidade o poder universal de uma loop station.

Esse instrumento de performance, que reivindica o seu lugar no palco, parece dar luta, mas Rui Bandeira sabe-o bem e dá-lhe a volta melhor!

A-L-M-A-N-Z-O-R…

Afinal, não se tratava de um ataque inimigo, mas do início de uma festa do jazz que atravessa os tempos, as barreiras e os sentidos.

Entretanto, a manta sonora acacha-te na constância de um ciclo que percorre trompete, melódica e castanholas. Os teus olhos detêm-se no vaivém do trombone, no sobe e desce dos pés, no pousa e segura instrumentos, no experimentalismo, num pedaço de infância e inocência.

Se, tal como eu, te deixas viciar pela adição de efeitos perdes-te na métrica e continuas a viajar.

J-A-Z-Z...

A loop pode bem ser o objecto criativo de sonho de tantos músicos, cantores, performers e artistas, mas, para mim, camadas sobrepostas de sons - meticulosamente, criados, emitidos, sincronizados e sentidos - provocam ainda mais impacto quando a camisola é às riscas!

É assim que começam as lendas e tu, qual donzela, hás-de ter a tentação de ir buscar água ao poço. A melodia até pode ser estranha, mas enfeitiça!

Que o olhar penetrante do mouro volte a hipnotizar-te e das ameias do Castelo ecoe de novo uma risada.

Milton Dias foi astuto, escolheu os músicos a dedo e a história já convence melómanos.

Neste primeiro capítulo, além de R'B Loop Station e do Showcase de Rui Bandeira, descola com os LiftOff, perde-te nos dedos e no piano de Óscar M. da Graça, no vibrafone de Jeffery Davis, no contrabaixo de Nelson Cascais e nas baquetas, pratos, um sino e muito jogo de mãos de Alexandre Frazão.

Memoriza ainda TGB: Tuba, Guitarra, Bateria. Expande-te com Sérgio Carolino, Mário Delgado e o Alexandre, novamente!

Deixa-te influenciar por André Fernandes e põe de lado preconceitos. Toca as estrelas do céu, as entranhas da terra e os grunhos da guitarra, do saxofone, do contrabaixo e da bateria. E, se mesmo assim, José Pedro Coelho, João Mortágua, Francisco Brito e João Pereira não te enfeitiçarem o suficiente, atenta à voz, quente e doce, de Nuno Matos Valente e ao rasgo bestial e traço, em directo, de Natacha Costa Pereira.

Que sonhes com olharapos, aventesmas e corrilários.

Se a Figura Fonética tinha intenção de soar agradavelmente aos nossos ouvidos, o objectivo foi mais do que conseguido!

Nos meus continuam a vibrar sonoridades grunge, eruditas, abstratas, pop e jazz.

F-E-S-T.

O meu Cavalo é o do pensamento. E tu, ficaste tal qual Moira: Encantada?!

__

A primeira edição do Almanzor JazzFest aconteceu de 27 a 29 de janeiro e foi organizada pela Figura Fonética - Associação Cultural, resultando de uma candidatura ao programa Garantir Cultura e tendo como parceiros a Banda de Alcobaça e o Município de Alcobaça.

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