Onde passear
Alcanena abraça-nos com a arte e a natureza
Ana Valente

Escrever este roteiro é contar uma história. Querem acompanhar-me? Foi assim o dia que passei na região de Alcanena

08 Junho, 2021

Alcanena abraça-nos com a arte e a natureza

Uns acabam de chegar de Alcobaça, outros de Leiria, Batalha e ainda Caldas da Rainha. O grupo reúne-se nos Paços do Concelho, cheio de vontade de conhecer a terra que, logo ali, junto ao edifício da câmara municipal, é apresentada como a terra da pele. A pele que dá trabalho a grande parte das famílias do concelho de Alcanena. A verdadeira pele, o verdadeiro produto que só se faz naquelas terras e que, com o orgulho genuíno daqueles que nos recebem, dizem chegar ao mundo inteiro.

O roteiro começa com uma viagem pelas ruas de Alcanena. A descrição pormenorizada e sábia de Vicente Batalha, histórico anfitrião da terra, acontece à medida que se desenrola o caminho pelas mãos, ao volante do autocarro, do senhor João, motorista da autarquia.

 

Museu da Boneca: o espaço dos afetos

Primeira paragem? Museu da Boneca. À porta do antigo refeitório da escola primária de Alcanena está Rosa Vieira. “Sejam bem-vindos ao museu dos afetos”, diz entusiasmada, e a porta abre-se.

Lá dentro, acreditem, estão 13 mil exemplares de bonecas. Muitas de tecido, outras tantas de porcelana, também de plástico, borracha, madeira e palha. Umas mais modernas e outras mais antigas. Bebés, barbies, super-heróis, rainhas, príncipes e princesas. Jogadores de futebol.  

Disponíveis aos nossos olhos, distribuídas pelo hall e por outras duas salas, estão perto de 300 bonecas. Mas visitar o Museu da Boneca é fazer uma viagem no tempo e, acima de tudo, querer voltar no ano seguinte, porque a exposição é renovada a cada mês de maio. É como se um género de mudança de cadeiras (neste caso, de expositores) se tratasse: umas bonecas ficam à vista, enquanto que outras descansam durante 12 meses numa espécie de biblioteca. A porta da sala “reservada”, assim lhe chama a colecionadora, nem sempre se abre. Tivemos sorte, nesta visita, porque é incrível a arrumação, a organização, entre armários que compõem vários corredores num espaço de meia dúzia de metros quadrados. Um cenário que nos transporta até à infância.

A mesma infância que deu origem ao projeto do museu. Só aos 7 anos, Rosa recebeu a primeira boneca, oferecida pelo pai, no natal de 1963. A menina de vestido comprido e caracóis é a “joia da coroa” daquele espaço e a primeira da coleção, que está a criar desde 2004. Sim, criar, porque há sempre espaço para mais uma!

 

Olhos d’Água e Centro de Ciência Viva

O próximo destino desperta vários sentidos. A caminho, desde Alcanena, os olhos captam a combinação de várias cores presentes na flora dos campos que atravessamos: o roxo, o verde, o branco e o amarelo. Sempre com a Serra dos Candeeiros ao fundo.

À chegada aos Olhos de Água, os ouvidos despertam com o som da força da água do rio a correr e com o som das rãs, que não se deixam ver, mas fazem-se ouvir. Nas margens do Alviela vemos escoteiros divididos por grupos à descoberta da natureza, famílias em passeio a pé ou de bicicleta, equipas de pequenos aventureiros a fazer atividades sob orientação dos monitores do Centro de Ciência Viva.

E é no Centro de Ciência Viva que vamos aprender mais sobre o que nos rodeia.

Morcegos, água, paisagem calcária e carso. As palavras recebem-nos na parede à entrada e são o fio condutor das experiências que se seguem dentro do mesmo espaço: começamos nas profundezas da terra, passamos por grutas e algares, ficamos a saber mais sobre a criação de montes e vales, fendas e cavidades e sobre o subterrâneo, onde a água percorre autênticos labirintos. Ficamos a saber, também, que as grutas perto da nascente do rio Alviela servem de abrigo a cerca de 5 mil morcegos de 12 espécies diferentes, representando um dos mais importantes abrigos de maternidade de morcegos em Portugal. Curiosos?  

E da nascente do rio partimos à descoberta da estrutura que durante décadas saciou a sede aos lisboetas. Com mais de 100 quilómetros de extensão, o aqueduto que parte da Louriceira é um exemplo da grandeza da arqueologia industrial do século XIX. As arcadas são imponentes e merecem alguns instantes da nossa atenção.

 

Minde: mantas e aguarelas

Seguimos em direção a Minde. O coreto recebe-nos a falar de arte, sem que, para isso, ouçamos quaisquer palavras: basta apreciar com atenção os azulejos que o decoram, porque retratam todos os passos da arte da tecelagem das centenárias e famosas mantas de Minde ou menízias do Ninhou, como se diz em minderico, a língua que, ainda, aqui e ali, é falada na região.

No Atelier de Tecelagem, a alguns metros do coreto, fazemos uma viagem no tempo. São vários os padrões e os produtos que a vista alcança. Apetece pôr mãos à obra nos teares de madeira que ainda hoje são utilizadas por quem não deixa morrer um produto genuíno, composto totalmente por lã de ovelha, feito de forma, também ela totalmente, artesanal.

A arte das mantas de Minde é descrita com orgulho por Alzira Roque Gameiro, a familiar de Alfredo Roque Gameiro (o pai do pintor era trisavô da museóloga) que nos devolve ao ponto de partida na vila, o coreto. O Museu de Aguarela Roque Gameiro, o único dedicado à aguarela em Portugal, está mesmo em frente, instalado na Casa dos Açores.

E é também Alzira que nos encaminha para as salas onde estão expostas aguarelas dedicadas, na mostra deste ano, à figura feminina. É incrível a precisão do traçado, as cores naturais e os cenários realistas alusivos a várias passagens do romance  ”As Pupilas do Senhor Reitor”, de Júlio Dinis. Os desenhos permitem que cada visitante faça a sua própria interpretação de todos os olhares presentes nas figuras de Roque Gameiro.

É penetrante o olhar presente na obra-prima do museu. É preciso tempo e serenidade para apreciar “O retrato da minha mãe”. Está patente numa das três salas onde também estão expostos objetos pessoais do pintor, que ajudam a contar a sua própria história.

 

A serra dos peregrinos e dos muros de pedra seca

Esta história faz-se também da história de milhares de peregrinos que sobem e descem a Serra de Santo António rumo ao Santuário de Fátima. Esta história faz-se também da paisagem desenhada pelos pastores através do erguer constante dos muros de pedra seca.

A viagem pelo concelho de Alcanena não podia deixar de se fazer sem passar por estes caminhos de serra. Ali, nos topos, com vistas de cortar a respiração, sentimo-nos abraçados pela força da natureza, o único aconchego que a pandemia (ainda) nos permite sentir.

Depois de devidamente registados e apreciados, admito que o retorno a casa foi bem tranquilo. Não há como não se deixar influenciar pela quietude e a serenidade destes contextos no regresso às azáfamas das nossas vidas.

 

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 A Bússola embarcou nos "Roteiros Imersivos: Sabores, Sentires e Saberes" a convite da Rede Cultura 2027.

A Rede Cultura 2027, tendo Leiria como ponto de partida, convoca 25 outros concelhos com um sentido comum: o sentido de, mais do que apenas mais uma candidatura a capital Europeia da Cultura, ser uma efetiva Rede Cultura que vai de Sobral do Monte Agraço, às portas de Lisboa, a 178 km a norte, até Castanheira de Pera, já na fronteira com Coimbra, unindo ainda o litoral popular da Nazaré à história aristocrata do Cadaval, geminando as Torres Novas com as Vedras; e envolvendo 3 Comunidades Intermunicipais, 3 Lugares Património Mundial, 3 Cidades Criativas, 3 Cidades de Aprendizagem e 2 Cátedras da UNESCO.

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