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Dois Quartetos sobre o mar de Mário Barreiros: uma odisseia marítima em devoção jazzística
José Alberto Vasco

Quinze anos depois de Dedadas, em que liderava o seu fluente sexteto, o categorizado guitarrista e baterista portuense Mário Barreiros regressou neste ano da graça de 2022 à edição de um seu significativo objeto discográfico, agora numa espécie de formato 2 em 1 e liderando dois veneráveis quartetos.

08 Abril, 2022

Dois Quartetos sobre o mar de Mário Barreiros: uma odisseia marítima em devoção jazzística

Numa primeira leitura, este seu nupérrimo e conceptual Dois Quartetos Sobre o Mar reavivou-me a faculdade de já conhecer as virtualidades musicais de Mário Barreiros desde pequenino, nomeadamente desde que se deu a conhecer no universo musical, integrando a novel banda Mini Pop, como guitarrista, em 1969. Fui acompanhando sensivelmente a meia distância a sua bem preenchida e multifacetada carreira, dela recordando sempre fases guitarrísticas como a dos setentrionais Jafumega ou a das abrunhosianas Cool Jazz Orchestra e Bandemónio (e com estes últimos terá atuado pela primeira vez em Alcobaça, em 20 de agosto de 1994, no Estádio Municipal), a de ter sido um dos eméritos fundadores da auspiciosa Escola de Jazz do Porto e também a sua chegada ao nível da produção e gravação, nos seus próprios MB-Estúdios, não esquecendo a sua entrada no universo do jazz, então como baterista, integrando o celebrado quarteto de António Pinho Vargas, em 1978. Outras companhias jazzísticas se sucederam no seu reconhecido percurso de percussionista, sempre junto à fina flor do jazz nacional e internacional, numa enumeração onde se juntam figuras gradas como Rão Kyao, Maria João, Carlos Barretto, Andy Sheppard, David Liebman e Wayne Shorter (esse mesmo, aquela divindade jazzística que anonimamente surgia de vez em quando em Alcobaça, na época em que o Bar Ben era uma das catedrais do jazz ao vivo em Portugal). A sua conceituada arte de exímio e capacitado baterista aprofundou-se em muitos anos de concertos e gravações em disco, bem como estudando e enriquecendo o seu conhecimento junto a percussionistas da elevada estirpe de Billy Hart, Paul Motian ou Kenny Washington. A viabilidade Alcobaça estava historicamente traçada no seu percurso e acabou por se concretizar em 2006, quando se tornou baterista efetivo dos The Gift, iniciando essa ligação no álbum Fácil de Entender, a que se seguiram Explode (2011), Altar (2017) e Verão (2019), numa vinculação aprofundada em inúmeros concertos ao vivo, em Portugal e noutros países. Essa filiação de Mário Barreiros aos The Gift acabaria por lhe proporcionar outra das convivências fundamentais nas suas carreiras de músico e produtor, a do exponencial e singular mestre Brian Eno.

O pressuposto criativo de Mário Barreiros na idealização e delineamento deste seu tão bem-vindo Quartetos Sobre o Mar foi um sugestivo e inspirador documentário sobre a vida dos oceanos, impulsionando-o a projetar e conceber uma produção musical que se consagrasse numa devotada homenagem a todos os que cuidam do mar e da sua preservação, incluindo os que nele mais diretamente trabalham, como os pescadores. Esse visionamento criativo consumou-se em duas vertentes, uma espécie de face A e face B do disco e da matéria em causa, assim tendo surgido a opção de edificar esta sua produção jazzística em dois quartetos diferentes: o Quarteto Pacífico, segundo o autor com uma feição “mais romântica”, e o Quarteto Abissal, que o criador conotou com uma tonalidade “mais exploratória de águas densas e profundas”. Daí chegou Mário Barreiros à definição criativa de que este disco “é um mergulho no misterioso grande azul, e na melhor das companhias. Uma paisagem sonora em 8 andamentos, sobre o Mar e suas tonalidades”. Definidos os propósitos criativos desta sua odisseia sonora maritimamente poetizada, passou o autor à sua componente prática, concretizando as suas opções em termos de músicos convidados para os dois quartetos em que se fundamenta esta sua produção discográfica, alguns dos quais assumindo neste caso a dupla função de intérpretes e compositores nos oito temas que coerentemente compõem o disco, numa estruturação rubricada no espírito compositivo de uma ode, dividida e potenciada em oito estrofes simbolicamente consentâneas. Nesse enquadramento, a primeira e fundamental decisão foi a de que o próprio Mário Barreiros se dividiria pelos dois quartetos como baterista, papel em que a sua arte lhe garantia a sabedoria e a qualidade para o fazer, aqui se recordando as cristalinas e decisivas influências dos fenomenais Tony Williams e Art Blakey, não só pela suprema arte de tão bem trabalhar sonoramente toda a bateria, mas também pela proeminência que libertavam aos músicos que integravam os seus históricos agrupamentos. Desse modo foi por um lado idealizado o Quarteto Pacífico, integrando Carlos Barretto, no contrabaixo, o galego Abe Rábade, no piano e Ricardo Toscano, no saxofone alto, e pelo outro o Quarteto Abissal, integrando o argentino Demian Cabaud, no contrabaixo, Miguel Meirinhos, no piano e José Pedro Coelho, no saxofone tenor, este último o único integrante de Dedadas a manter-se no alinhamento dos convidados de Mário Barreiros entre os seus dois discos editados em nome próprio. E aqui se ressalva que a edição deste Dois Quartetos Sobre o Mar é uma edição de autor, na melhor tradição da chamada música alternativa e da área pop/rock, de reconhecida importância decisiva na formação de Mário Barreiros, o que justifica também a opção de o disco estar maioritariamente acessível ao grande público nas plataformas digitais. 

Passando ao disco propriamente dito, ele inicia-se com os quatro temas do Quarteto Pacífico, cabendo as honras de abertura a Só Ten o Corpo Memoria, de autoria de Abe Rábade, sob inspiração de um poema escrito em galego. Toscano e Rábade tocam como quem recita um poema, vagueando pelos seus versos como quem vagueia pelos mares, com Barreiros e Barretto a manifestarem a inexcedível cumplicidade que potencia o conjunto, comportando-se como o insuspeito coro dionisíaco que transforma este tema numa elegia musical aos mares e à poesia. O sentido discurso introdutivo de Toscano segura-nos logo ao primeiro acorde, assumindo-se como o intensivo convite a que embarquemos nesta odisseia até à exaustão e a verdade é que após este tão cativante tema já não conseguimos escapar a esse destino, encantados nesta homérica trama tão imanente no autêntico jazz, sendo iniludível que nesta ondulação ficamos desde logo a saber estarmos aqui perante isso mesmo: jazz sério e a sério, sendo Rábade neste caso o Hermes que desde logo resgata esta odisseia de harmónico encantamento até ao seu destino. Embarcamos seguidamente no único tema de autoria de Mário Barreiros incluído neste disco, Aquática, com a sonoridade da sua bateria a conduzir superiormente os seus músicos nesta sua odisseia criativa de inspiração aquátil, comportando-se, como em todo este disco, como o Ulisses que contorna os desígnios marítimo/musicais da sua produção através da lógica e da retórica, incentivando os seus marinheiros/músicos, que não se fazem rogados à vontade e ao desígnio do mestre, libertando coletivamente as suas vozes neste hino de devoção à superioridade dos mares e da sua vivência. Após este inspirador tema, esta odisseia discográfica conduz-nos à segunda faixa de Abe Rábade incluída neste disco, Narciso. O pianista galego constrói aqui mais um tema sugestionado em poesia, neste caso do latino Ovídio, e volta a fazê-lo pleno de sentimento e criatividade, libertando Toscano para uma narrativa plena de arte e sentir, que ele próprio incentiva através de um pianismo prenhe de introspeção a que a secção rítmica de Barretto e Barreiros permitem toda a soberania de se espraiar. A prestação definitiva do sedutor Quarteto Pacífico neste disco de sentires e sentimentos é o tema que o denomina, Pacífico, de autoria do saxofonista Ricardo Toscano, inspirado na dimensão física, cultural e poética do oceano que domina o planeta. Toscano conduz a embarcação de Mário Barreiros para uma viagem iniciática através deste mar de águas imensas e revoltas, como se fosse o Alcínoo que guia Ulisses até Ítaca e Rábade não se coíbe de o acompanhar nesse etéreo desmando de águas, sempre suportados/incentivados pelo ilustre par Barreiros/ Barreto na sua própria imensidão de sons e flutuações jazzísticas, comportando-se o exemplar contrabaixista como o Zeus cuja preponderância artística mantém a pacificação sistémica que suporta esta viagem. Voltando o disco para o outro lado, como ainda se faz numa edição em vinil, passamos para a jurisdição musicista do Quarteto Abissal, mantendo-se Mário Barreiros no seu domínio de autoridade criativa, agora em companhia do pianista Miguel Meirinhos, do saxofonista José Pedro Coelho e do contrabaixista Demian Cabaud, a quem cabe a autoria do primeiro tema deste ensemble neste disco, El Árbol Negro. A ideia fundadora desta composição chegou a Cabaud depois de assistir à projeção do documentário El Arbol Negro, de Demian Coluccio e Máximo Ciambella, cuja história corresponde a uma lenda da comunidade indígena Qom, da província argentina de Formosa. Essa lenda corresponde a uma grande árvore negra que permite a quem chegue até ela enviar mensagens por meio de pássaros e curar maldições. A ideia é que cada um tem sua própria árvore negra e deve empreender uma jornada mística através do reino das águas para encontrá-la. Logo de entrada facilmente nos apercebemos estar agora perante uma ambiência sonora mais vincada, que Barreiros e Cabaud acentuam no seu toque mais intenso, com José Pedro Coelho a coltranear claramente o enquadramento e Miguel Meirinhos a fazer soar o seu piano de um modo que indicia estarmos perante o músico que é a grande revelação deste disco e a justificar desde logo maior atenção. Hard bop puro e duro a iniciar esta fase do disco e a incentivar ainda mais o nosso ouvidinho sedento de novas emoções, com o reluzente contrabaixista argentino a patentear os dotes de Atena que com sabedoria, justiça e estratégia vincam esta secção criativa do disco. Segue-se outro tema de Demian Cabaud, Clarabóia, iniciado por Cabaud e Meirinhos numa algo inesperada sonoridade abstrata, que Coelho seguidamente sinaliza para um pendor mais jazzy, sempre com Barreiros a marcar e traçar a ambiência através do seu toque de sabedoria baterística. Um sinuoso e inteletivo saxofonismo de Coelho conduz-nos depois até ao final do tema, num slalon de que quase apetece não sair, assumindo o papel do Telémaco cujo amadurecimento tem sido notório num trajeto saxofonístico digno de admiração. Tudo isto acontece muito logicamente, pois estamos a ouvir um disco, conduzindo-nos agora as suas espirais ao único tema de autoria do mesmíssimo José Pedro Coelho nesta produção discográfica: Abissal. Sonoridade coltraneana quanto baste, claramente muito mais virtude que defeito, com este Quarteto Abissal a demonstrar ter pernas próprias para andar e Miguel Meirinhos a dar mais uma vez fortes sinais de que temos ali Homem para o futuro do jazz nacional, manifestando o feitiço de Circe que nos magnetiza o ouvido através dos seus encantamentos. E assim chegamos ao tema que encerra o alinhamento deste muito bem conseguido disco do ilustríssimo Mário Barreiros, novamente com um tema de Demian Cabaud a conduzir-nos até ao final desta odisseia de devoção jazzística, o evolutivo Rede, que é isso mesmo, um percurso breve e saudavelmente libertino de quatro brilhantes músicos através dos mares da vivência jazz, cimentando muito favoravelmente este Dois Quartetos Sobre o Mar, que só muito dificilmente não será um dos melhores discos do ano em Portugal no que respeita a uma área em que muitas vezes somos evasivamente conduzidos a alguma confusão tipológica. Neste caso temos mesmo um belíssimo disco de jazz,  estando de parabéns Mário Barreiros e os seu parceiros nesta aventura de concretizar um bom disco de jazz, seja lá em que parte do  mundo for, libertando a noção de que será uma questão de absoluto prazer a sua audição ao vivo e a cores, certamente muitas. 

Resta-me aqui  recordar que o sempre atento programador Adelino Mota, convincente diretor artístico do inconfundível e meritório Festival de Jazz de Valado dos Frades não deixou passar em branco a edição deste disco e integrou o Quarteto de Mário Barreiros na programação da 25ª edição daquele eternamente imperdível festival. Lá nos encontraremos, certamente!

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