À espera das camarinhas

À espera das camarinhas
Sofia Francisco, Professora de Inglês

Acordei com vontade de comer camarinhas, mas sei que terei de esperar até ao verão.  Esperar…nada de novo nos dias que correm. Se há algo que a pandemia nos trouxe foi (a aprender) a ter paciência e aceitar que somos muito menos senhores da nossa vida do que julgávamos.

Na maioria destes dias, sinto-me à espera numa bolha suspensa, com uma sensação de intervalo e de demora que teima em pairar. Esperar que o número de infetados e de mortos baixe; esperar que os especialistas sejam ouvidos; esperar pelo novo plano de desconfinamento; esperar pelo novo episódio do “This is Us”; esperar por poder estreitar nos meus braços quem amo… 

Por isso me volto para as camarinhas: eu sou doida por camarinhas! Lembram-me a praia, o cheiro do Pinhal de Leiria e uma história passada na praia de São Pedro de Moel, quando fugi à minha mãe e levei umas palmadas no rabo. Sei que nesse dia me valeram as camarinhas que comi quando, no regresso a casa, parámos no pinhal. Brancas, gordinhas (são as mais doces), a tirar-me da boca o salgado não de mar, mas das lágrimas que ainda sentia.

Estamos quase em março e daqui a nada haverá campos mais floridos. As camarinheiras também florirão e, a partir de julho, darão frutos, as camarinhas, que diz a lenda serem lágrimas cristalizadas da Rainha Santa Isabel.  

São dias cinzentos os de hoje, mas eu fui pintada de verde esperança e estou crente que brevemente atravessarei os concelhos que me apetecer.  Quanto às camarinhas, pérolas do Atlântico amargas e doces envoltas em saudade, sei que esperarão por mim, pacificamente, num pinhal perfumado perto da praia.

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