Palcos
Este mundo é uma casa cheia
Carla Veríssimo

Um concerto Cistermúsica que encheu a alma e o coração da nossa cronista 

06 Outubro, 2021

Este mundo é uma casa cheia

Consegues imaginar um concerto com música tradicional arménia, pós-minimalismo contemporâneo, jazz, rock e nova música clássica?

Parece estranho, não parece?!

Mas digo-te que é espiritual.

Estranho é ver alguém de caderno no regaço e lápis na mão, a escrever durante um concerto.

Assim estive eu, naquela noite de 30 de Julho, uma noite em que o frio se fez sentir, mais do que nunca.

Mais do que nunca, porque Olga Prats nos deixara naquele dia. No dia em que The Naghash Ensemble subiu ao palco, Olga subiu aos céus: Para sempre…

E como se esta coincidência não bastasse, quis O criador de toda a Criação que a primeira pianista em Portugal a interpretar e gravar Astor Piazolla partisse no mesmo ano que o músico completaria os 100 – efeméride, por sinal, assinalada pelo Cistermúsica 2021.

Mas voltemos ao concerto.

Imagina-te na Cerca do Mosteiro. Escuta as vozes das sopranos Hasmik Baghdasaryan e Tatevik Movsesyan e de Arpine Ter-Petrosyan, alto, e junto com os músicos Emmanuel Hovhannisyan, no duduk, Aram Nikoghosyan, no oud e Tigran Hovhannisyan, no dhol, deixa-te levar até à Arménia.

A poesia, que tem o poder de confortar a alma, revelou-se sagrada! Ou não tivessem sido os textos de um padre medieval arménio a centelha que faltava na longa busca de John Hodian – o director musical destas Canções do Exílio.

Após se sentir tocado pela música espiritual medieval arménia, na voz de Hasmik Baghdasaryan, Hodian decide escrever algo que usasse esse som numa nova forma.

Demorou vários anos a descobrir o texto certo, até que se identificou facilmente com os poemas de Mkrtich Naghash - poeta e padre do século XV, ou não tivesse ele escrito tanto sobre o exílio e fosse Hodian de ascendência arménia e neto de sobreviventes do genocídio.

Eu disse-te que era espiritual, não disse?

O certo é que John Hodian conseguiu reunir alguns dos melhores músicos e cantores da Arménia para formar o som único do The Naghash Ensemble e a história que começou num antigo templo pagão, continuou naquela noite num Monumento Património da Humanidade.

Ao som da música as nuvens adensaram-se no céu.

Os Monges de outros tempos devem ter bem ouvido aqueles sons, e as hortas – se ainda as houvesse – aposto que fariam brotar bons legumes, frutas e hortaliças.

Pode não se ter percebido uma única palavra do que cantavam, mas sentiu-se bem a profundeza do canto.

Reparaste no jogo de luzes fenomenal e requintado? Como se fossem os próprios vitrais do Mosteiro a iluminar o Ensemble! De repente, atravessou a cobertura e fundiu-se com os verdadeiros vitrais, num roxo, rosa, lilás, que levaram com eles as mentes do público, numa calmaria semelhante à de uma meditação.

A “Meditação sobre a Ganância” - tal qual um dos fragmentos dos poemas, lidos por Sónia Balacó.

Enquanto escrevo reparo em Vitória, sentada ao colo do pai, no alto dos seus 8 anos. Divertia-se imenso, fazendo coreografias ao som daquela música “estranha”.

Penso em todas as crianças do mundo.

O concerto continua e Vitória vai com a música, ora clássica, ora jazz, ora rock. Ora adormece, ora salta, ora sorri e gesticula novamente.

Quando não escrevo, as folhas do meu caderno dançam ao sabor dos ritmos.

Nas “Lamentações para os mortos”, o padre e poeta escreveu:

“… de repente vinda do nada, a morte abateu-se sobre mim

E quaisquer planos que eu tinha ficaram por concretizar

Para a minha longa viagem, preparai uma cerimónia

Orai e implorai por mim

Suplico-vos, não me esqueçais”

Volto a pensar em Olga Prats.

No final, Vitória dorme, serena, abraçada ao pai e retenho a visão de um momento fugaz, que mexe tanto cá dentro.

Que mais Vitórias possam vibrar felizes ao som de músicas “estranhas” e que haja sempre um piano nos céus.

“Este mundo é uma casa cheia de tesouros, esplendor e riquezas”, assim escreveu Mkrtich Naghash.

Que a Arménia possa crescer no sorriso das crianças.

© Fotografias David Mariano/Cistermúsica e Sara Leonardo

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