Inquietação, Inquietação

Inquietação, Inquietação
Diana Nicolau, Atriz

A única doença mais falada dos últimos dois anos, além do maldito coronavírus, é a ansiedade. A saúde mental está na ordem do dia, e quem não está a ser acompanhado por médicos, ou terapeutas, conhece alguém próximo que está. As clínicas de saúde mental e as agendas dos psicólogos e psiquiatras estão lotadas, devido a um aumento de 450% na procura por profissionais da área.

Eu convivo com a ansiedade desde que me lembro. Ouvi sempre que era irrequieta, que era muito sensível (essa então ainda ouço), uma florzinha de estufa. Nem sempre soube que nome dar ao aperto no peito que sentia dia sim dia não, sem razão aparente. A ansiedade nem sempre tem motivo. Analisando friamente, a ansiedade não é mais que o medo da antecipação de algo. Medo e receio de algo que ainda não aconteceu. Muitas das vezes, de algo que nem sabemos o que é. No meu caso só sei que me impede de respirar como quero, como se naquele momento os meus pulmões tivessem metade da capacidade normal, e por mais que respire fundo, devagar ou rápido, não consigo levar oxigénio suficiente aos meus órgãos. Uma coisa tão simples como respirar, um acto diário irreflectido, de repente torna-se numa missão impossível, e no meu caso, obsessiva-compulsiva. Só tenho uma coisa em mente: preciso respirar! O nosso cérebro começa a pregar-nos partidas e é aí que a ansiedade começa a transformar-se num ataque descontrolado. Tenho muita inveja de quem não sabe o que isto é. Quando era miúda não se falava muito disto. E mesmo que se falasse, a ansiedade e o stress eram para quem tinha cargos importantes e muita responsabilidade. Hoje em dia sabemos que isso não é verdade e que apanha qualquer um desprevenido.

Aprendi a controlar a ansiedade – nem sempre resulta, mas a meditação, a terapia, o exercício físico e o contacto com a natureza ajudam. Muitas vezes dou por mim a falar sozinha e a tentar encontrar justificações para me sentir ansiosa. A maior parte das vezes não as encontro. Esta pandemia veio agudizar e também democratizar este estado: a famosa ansiedade chegou a todos. Andamos à deriva sem saber quando é que a nossa vida normal nos vai ser devolvida, se os nossos familiares vão sobreviver, se as histórias horríveis que ouvimos nos jornais, um dia vão ser as nossas; se a vacina será suficiente para nos manter sãos. O medo do desconhecido. No fundo, a ansiedade é isso mesmo, medo do futuro. Ninguém se sente ansioso hoje, porque ontem teve de falar em público. O futuro é que é tramado.

Mas quanto a isso não se pode fazer nada, é para lá que caminhamos, e é no futuro que está a esperança de ver o fim disto. Do vírus. A ansiedade ainda vai andar por aqui durante muito tempo. No meu caso, ajuda pensar nela como uma criança mimada que quer atenção e faz birras por tudo e por nada. Há quem diga que com crianças mimadas não se negoceia. Eu negoceio com a minha ansiedade, e digo-lhe: “Vou-te dar 10 minutos de atenção, vais acalmar, e depois deixas-me voltar à minha vida, porque tenho mais que fazer!”

Se resulta? Nem sempre. Mas eu sou mais teimosa que ela, e um dia ela cansa-se. Muita saúde e ânimo para todos.

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