Lutar como uma Nazarena

Lutar como uma Nazarena
Sofia Francisco, Professora de Inglês

Na semana passada, dei por mim a olhar para a minha capa de telemóvel, comprada por impulso e pouca necessidade, numa loja do aeroporto, com a inscrição “Fight like a girl”. 

Pois muito bem, a mulher feita, maior de idade e convenientemente vacinada que sou eu, a pavonear-se com uma frase da moda. Repreendi-me mentalmente e só ainda não a deitei fora porque detesto fazê-lo com o que está em bom estado e talvez porque, como cantam os Clã, a língua inglesa fica sempre bem. Mas, contudo, ando com uma vontade doida de substituir a dita frase por algo do género “Luta como uma Nazarena”. Eu explico já no parágrafo seguinte.

Gosto da praia da Nazaré, mas talvez por ainda não ter feito as pazes com o mar que já me pregou uns valentes sustos e me roubou a parte de cima de um biquíni, onde gosto mesmo de me perder é na vila de ruas estreitas, cheia de portas abertas e de roupa lavada nos estendais. E depois, o maravilhoso que é observar as Mulheres de Nazaré, assim mesmo com maiúscula, a mostrarem que não precisam de frases feitas para gritarem a palavra empoderamento dentro de si próprias, a gerirem negócios como ninguém, a levar pão e educação, desde sempre, para casa, enquanto os homens procuram peixe no mar. E que dizer das suas saias? Sete saias a rirem-se de mim que, por vezes, tenho a mania que sou a maior só porque uso calções curtos, aos cinquenta anos, no verão? E as vozes cantadas? O falar alto sem medo de convenções, do que parece bem, a silenciarem os meus receios de “às vezes é melhor é estar caladinha”.

Fala-se tanto de empoderamento feminino, não é? Eu mesma já usei neste texto a palavra por duas vezes, mas às vezes os exemplos reais passam-nos ao lado, talvez porque não estão vestidos de tendências, não usam a paleta de cores Pantone, talvez porque estão tão próximos que se tornam invisíveis.  Uma avó, uma tia, uma amiga… a maioria das vezes os modelos inspiradores que procuramos estão mesmo ao nosso lado. Procurem-nos. E, já sabem, caso tenham necessidade de mais, é só ir à Nazaré - as miúdas que lutam estão ali (e por todo o lado).

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