Nuvem - Parte II

Nuvem - Parte II
Diana Nicolau, Atriz

Estou de volta à Bússola.

E estamos todos de volta a casa. Como aquela nuvem que vimos vir lá do fundo a ameaçar tapar o sol, bem devagarinho. E ela aparece precisamente naquele momento em que nos deitamos na toalha a tremer de frio depois de um mergulho no mar. Quando mais precisamos do sol, daquele quentinho para enxugar o corpo; e neste caso – a alma, a nuvem vem e fica. Cada vez maior e mais escura e sem fim à vista. E o raio da nuvem que não passa.

Este segundo confinamento, é como um remake de um filme que todos viram e poucos gostaram.

Enquanto que no primeiro, tudo era novidade e todos nos estávamos a adaptar à nova realidade: ao teletrabalho, à telescola, a gerir uma família num mesmo espaço fechados 24 horas, 7 dias por semana; alguns descobriram o gosto pela cozinha, outros pelo exercício físico, outros dedicaram-se à bricolagem e outros tornaram-se autênticos masters da jardinagem e do cultivo. Muitos viveram a quarentena como uma oportunidade óptima para se reinventarem. Puderam pôr em dia as leituras, as séries, os filmes, dar asas à criatividade e dedicar tempo a si. Destes casos, todos ouvimos falar e se calhar, nós somos um deles. Mas estes são os felizardos. E os outros? Os que continuaram a trabalhar, a arriscar a sua saúde e a vida dos mais próximos? Os que se viram privados das suas famílias, avós dos netos, filhos dos pais, casais? Avós que faleceram sozinhos, muitos sem entenderem o que se passava à sua volta, ou por outra... o que não se passava. Que se despediram de filhos e netos por gestos através de uma janela ou de um ecrã de um telemóvel – completamente alheios de que se tratava de uma despedida.

 

Artistas que vivem a recibos verdes que viram os seus trabalhos serem cancelados, como alguns que conheço que esgotaram as poupanças todas simplesmente a tentar sobreviver à espera do apoio do ministério da cultura - e ainda assim deram a volta por cima e criaram novas formas de arte, usando outros veículos para comunicar. 

Comerciantes, empresários, e todos os trabalhadores que se viram privados disso mesmo: de trabalhar. E quando estávamos ainda a apanhar os cacos da primeira onda, veio mais uma. E agora é uma onda e uma nuvem escura, tudo ao mesmo tempo. 

E nós em casa a ver – e é onde devemos estar!

 

Mas em Janeiro nem tudo foi mau. No mês em que vimos a nossa liberdade confinada pela segunda vez, foi também o mês em que pudemos usar o nosso poder de voto para ver a nossa liberdade renovada, e afastar a ameaça de um confinamento da esquerda pela direita.

Isso já era demais. Era juntar à onda e à nuvem, um tornado e um terramoto – tudo ao mesmo tempo.

Fiquemos em casa que a nuvem há-de passar – parte 2.

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