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O fantástico senhor Anderson
David Mariano

Crítica a “Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun” de Wes Anderson:  inspirada carta de amor às velhas memórias do jornalismo e do cinema francês que revela a inesgotável dimensão plástica de um cineasta no zénite das suas capacidades criativas

18 Novembro, 2021

O fantástico senhor Anderson

Wes Anderson é um dos mais interessantes (e delirantes) cineastas norte-americanos que conhecemos, e se não escrevemos um dos mais originais (já que o vemos antes como um talentoso reciclador), é certamente um dos mais singulares e indispensáveis. Alguém que soube manter um equilíbrio raro no seu percurso, e mais importante do que tudo isto, criar através dos seus filmes uma chancela única que hoje se verteu numa clara “marca registada” – aspeto que no panorama atual da indústria não é de somenos importância. Chamemos-lhe um “autor”, então, que, olhando a muito do seu imaginário, parece ter maiores afinidades com o cinema europeu, embora não só. Vemos nele ainda um lado de “cidadão do mundo” e aquele tipo de diletantismo cosmopolita que o levaram a abordar diversas “geografias” nas suas deambulações anteriores, desde a Índia em “The Darjeeling Limited” (2007) ao Império Austro-Húngaro em “Grand Budapest Hotel” (2014) até ao Japão em “A Ilha dos Cães” (2018), citando os exemplos mais evidentes. 

Há também nele uma veia aristocrática e intelectual – mais erudita do que ‘pop’ e sempre em saudável dose caricatural – que conjugada com a obsessão detalhista que caracterizam as suas obras – os planos, os adereços, as cores –, numa simetria e harmonia quase obsessiva que se erige como um autêntico monumento formal, fizeram dele um elegante arauto de épocas distantes e um artífice de velhas técnicas cinematográficas e visuais. Recorde-se o caso de “O Fantástico Senhor Raposo” (2009) filmado todo em ‘stop motion’, ou o anteriormente referido “A Ilha dos Cães” onde repetiu o mesmo processo. A par desta sua vertente ‘bricolage’, a convocação de variadas correntes, sociais e artísticas, do cinema à literatura, da arquitetura à filosofia, da pintura à própria História, transformando universos e visões alternativas dessa memória cultural em puros momentos lúdicos e narrativos. Nesse sentido, será porventura com o conterrâneo Quentin Tarantino, um dos que mais se diverte (e diverte o espetador) com o seu particular legado popular, recuperando, sobretudo através da Sétima Arte e da sua capacidade mágica de recriar mundos paralelos, novos modos de “contar histórias”.

Ora, se contar histórias é substancialmente o que marca essa outra nobre “arte”, a do jornalismo, tem toda a lógica que na sua mais recente produção haja essa aposta e homenagem. E contudo, “Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun”, retrato pitoresco de um semanário sedeado na ficcionada cidade francesa de Ennui-sur-Blasé, em momento indeterminado do século XX, que se dedica aos mais variados temas de atualidade sob a direção de Arthur Howitzer Jr. (interpretado pelo ator-fetiche Bill Murray), figura cheia de todas aquelas típicas características do editor romântico, é muito mais do que isso. Dividido essencialmente em três ‘sketches’ que abordam e satirizam os microcosmos da pintura, da política e do crime (ou da gastronomia, dependendo da perspetiva), lembra as famosas películas europeias de segmentos tão habituais nos anos 1960 e 1970. Viajamos assim por uma França mítica (ou mitificada) e por alguns dos seus períodos mais emblemáticos e fraturantes, tais como o movimento surrealista ou o maio de 1968, sugeridos e distorcidos como é óbvio pela ótica do realizador com total maestria e um livre sentido de auto-paródia.

 

Carta de amor assumida ao The New Yorker – sendo o “The French Dispatch” do título original a mais que evidente declinação da famosa revista – é igualmente um sensível tributo a Jacques Tati e à ‘nouvelle vague’, onde François Truffaut, Jean-Luc Godard ou Anna Karina nos vêm facilmente à cabeça. A cronistas e escritores como James Baldwin, Mavis Gallant, A. J. Liebling e Lillian Ross, apenas para pegar nalguns dos nomes listados nos créditos finais. Aos ilustradores e autores de banda-desenhada, em especial os da tradição franco-belga. E aos loucos e implacáveis pintores e negociantes de arte dos séculos passados que apontaram inovadoras tendências estéticas. Tudo isso talhado numa ampla e irrepreensível tapeçaria cinematográfica que se não é o pináculo do ‘savoir faire’ do diretor, é com certeza um dos pontos mais altos da sua intrincada e exuberante maneira de operar o cinema. Não se mostrando um objeto tão inspirado como constituiu para nós “The Darjeeling Limited”, este “Crónicas de França…” não deixa de ser um dos capítulos mais fascinantes, complexos e vertiginosos de toda a sua carreira. Aquele onde atinge sem dúvida um nível de “pictorialismo” quase doentio e hipnótico, tanto na construção dos seus quadros como na atenção dada aos pormenores que os compõem – algo que é ao mesmo tempo a sua força e a sua fraqueza. Porque na intrínseca relação com as belas-artes cada fotograma é na realidade isso: um “quadro” que ou muito nos enganamos ou um dia serão estudados como verdadeiros modelos de composição plástica e criativa.

Pontuação: ⭐⭐⭐½

 

“Crónicas de França do Liberty, Kansas Evening Sun” de Wes Anderson pode ser visto no CinePlace de Leiria – LeiriaShopping. 

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