O verdadeiro sabor das amêndoas

O verdadeiro sabor das amêndoas
Sofia Francisco, Professora de Inglês

Tenho cinquentas anos, sei que a Charli d’Amelio é a adolescente mais popular no Tik Tok, já fiz  vídeos no Reels, trabalho com muitas plataformas educativas e gabo-me de ter um anel de luz para estar mais apresentável nas reuniões e aulas online. Só peneiras, dirão alguns — e com alguma razão.  Isto tudo para vos dizer que acho graça ao que aparece de novo, que não tenho o hábito de olhar para o passado e pensar que antigamente é que era bom e que tenho, na maioria dos dias, ânsia de futuro. No entanto, quando chega esta altura e ponho uma amêndoa na boca, o caso muda de figura.

Acontece todos os anos… Sempre que se aproxima a Páscoa, parto à procura do sabor que as amêndoas tinham quando eu era uma menina de seis ou sete anos. Vejo as opções disponíveis, as mil e uma marcas, os tipos franceses e outros que tais, experimento as de confeitarias e supermercados e desisto. Acho graça às de canela e às de chocolate negro, experimento as novidades, mas nada. Nada se compara ao sabor das amêndoas do passado e sei que não existe fórmula certeira que transforme as amêndoas de hoje no sabor que tinham as do pacotinho que era deixado, na mesa da sala, pelo Padre Júlio. Um pacotinho de Lisa Cores, que eu comia com medo de partir algum dente, a poupá-las e acreditar que tinham poder divino.

Contei-vos das minhas memórias…  Eu que sou das pessoas com sorte, das que têm memórias com açúcar suficiente para adoçar a vida em dias de amargos de boca, mas não posso fingir que não sei que há muitas crianças, ao contrário de mim, a guardar, dos anos da sua primeira vida, memórias de amêndoas amargas.

Impossível, pois, nesta Páscoa e nas próximas que eu viver, não voltar a Valentina e a tantas crianças que sofrem por não terem nascido numa família que as proteja. É que somos muito do que vivemos ao longo da vida, mas somos (também) o que a nossa infância faz de nós. Cabe-me a mim, cabe-nos a nós, prestar  mais atenção ao Presente que será Futuro. Só assim este será, efetivamente, mais doce. Amêndoas amargas, só no licor.

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