Pandemia do consumismo

Pandemia do consumismo
Diana Nicolau, Atriz

Esta pandemia trouxe outra mais antiga ao de cima. A do consumismo. Essa já todos conhecemos e tratamos por tu há muito mais tempo do que este vírus. Surpreendentemente, apesar de estarmos todos fechados em casa, o consumo de e- ommerce aumentou entre 150% a 170% desde março de 2020, em comparação com o período homólogo. Isto quer dizer que descarregámos as nossas frustrações em compras online. Lembro-me que no primeiro confinamento, o único movimento que havia na minha rua era de carrinhas de transportadoras e estafetas.

Mas também houve quem aproveitasse o tempo fechado em casa para fazer limpezas e ‘destralhanços'. Ao longo da nossa vida acumulamos tanta coisa, que às vezes é preciso mudar de casa para perceber que temos mais do que usamos, e sem sombra de dúvidas, muito mais do que precisamos.

Eu faço estes ‘destralhanços’ regularmente, dou a amigos e a associações de pessoas carenciadas; e desde que comecei a viajar por períodos longos apenas com uma mochila que percebi a necessidade de reduzir o consumo ao mínimo essencial. Muitas vezes compramos de forma desmedida para colmatar alguma falha na nossa vida. Aquela saia não te vai restaurar a auto-estima – pode ajudar, mas a duração da ‘terapia do saia’ é tão curta quanto a própria vida da mesma.

Quando regressei da minha última viagem, percebi que se tinha andado 9 meses a usar apenas o conteúdo de uma mochila, então não precisava de 10 pares de calças e 20 t-shirts.
Foi a pensar nisto que comecei um desafio: 1 ano inteiro sem comprar NADA. E resolvi criar o #freethecloset, na esperança de conseguir libertar o meu armário, e incentivar outras pessoas a fazer o mesmo. Criei uma página de instagram onde vendo coisas de que gosto muito, mas que já não uso há mais de 1 ano.

Se em vez de comprarmos coisas novas, comprarmos em segunda mão, ou reciclarmos roupa de amigos, primos, irmãos, a carteira agradece e o planeta também. O objetivo do #freethecloset não é fazer dinheiro, é apenas passar para outros aquilo que (apesar de gostar muito) já não preciso. Reciclar, reutilizar e reduzir. Aprendemos na escola mas esta sociedade de consumo rápido faz-nos esquecer e até nos incentiva ao contrário. Acreditem: se não usámos aquela peça nos últimos 2 anos, dificilmente vamos voltar a vesti-la. A quantidade de coisas que guardamos na esperança de que voltem a estar na moda, ou que voltem a servir-nos, é absurda.

Destralhar o armário, a casa e consequentemente a cabeça, é das sensações mais libertadoras que existem. E se dermos a quem precisa mais, aí então é a cereja no topo do bolo.

Love people, not things, because the opposite never works.
Spencer W. Kimball

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