Cinema/TV
A queda da casa de Atreides
David Mariano

Crítica a “Duna” de Denis Villeneuve: primeira metade da ambiciosa adaptação do clássico de ficção científica de Frank Herbert revela-se uma produção tão visualmente sumptuosa e minimalista quanto vazia de emoção. 

29 Outubro, 2021

A queda da casa de Atreides

É a história de uma eliminatória que está a meio e vai agora para o intervalo, mas – insistindo na metáfora futebolística – esta partida a duas mãos parece já perdida: a primeira parte de "Duna" do canadiano Denis Villeneuve confirma as piores expetativas e mostra ser uma aposta demasiado vasta e intrincada para as suas mãos geralmente assépticas e neutras. Nunca seria tarefa fácil a adaptação deste clássico literário da ficção científica de Frank Herbert que em 1984 conheceu uma excelente versão de David Lynch – renegada pelo próprio por insanáveis conflitos com os produtores na decisão do ‘final cut’ – e uma outra tentada por Alejandro Jodorowsky que deu origem ao documentário de Frank Pavich, “Jodorowsky’s Dune” (2013), sobre todo o processo frustrado. Ou seja, deste projeto intimidante em função da complexidade original da fonte literária e habitualmente amaldiçoado pela sua ampla dimensão financeira e criativa, é o objeto lynchiano que tem resistido como exemplo consumado. É por isso um pouco inevitável comparar a visão de Lynch à de Villeneuve – nem que seja pela utilidade de mostrar o que divide um enorme cineasta de um mediano. E as primeiras impressões que saltam à vista é que onde o primeiro era genuinamente barroco e perverso, o segundo não consegue ser mais do que minimalista e grotesco – isto por muita qualidade que venha de uma direção de arte pejada de simbologia étnica e belos adereços. Incomparável também o carisma e o cunho do protagonista principal de então, Kyle MacLachlan, face à escolha do atual, Timothée Chalamet, que não inspira um milésimo da nossa confiança enquanto espetadores.

Aliás, todos os atores estão a milhas de anos-luz de suscitar alguma estima e crença; e destes talvez só se salve a presença de espírito e corpo da atriz sueca Rebecca Ferguson, no papel da mãe e concubina Lady Jessica. Ou mais importante, incapazes de inspirar aquela dose de mitologia e misticismo vitais à narrativa, tão presos que estão a diálogos bastante esquemáticos e simplistas – o que não deixa de ser uma surpresa em função da riqueza do objeto literário explorado que merecia melhor abordagem e fidelidade ao seu universo de intrigas palacianas. O que não é surpresa é a crescente afirmação de Denis Villeneuve como um tarefeiro da indústria de Hollywood com queda para o ‘box-office’ e cada vez mais dado a estes projetos de revisão de produtos da cultura popular, sobretudo depois do falhado (a nível artístico e retrospetivo) “Blade Runner 2049” (2017). Detentor sem dúvida de uma qualidade técnica irrepreensível – embora tudo nele surja para impressionar –, é quase sempre cínico e monocromático no tratamento das suas histórias e personagens como volta a acontecer. Produções amarradas à camisa de forças da estilização visual – e como tudo o que se funda no “estilo”, nunca há um verdadeiro estilo. E pasme-se, “estilo” esse que hoje vai perigosamente mimetizando outro “estilista” dos nossos tempos: Christopher Nolan (até na maneira como se socorre de uma banda sonora opressiva e omnipresente pejada daquelas típicas e irritantes zoadas que fazem estremecer a sala de cinema ou por solenes orquestrações que apascentam os planos vistosos).

Portanto, um realizador que nunca sai fora do espartilho formal que criou para si próprio e que apesar disso, ou quem sabe, sobretudo por isso, conseguiu angariar uma audiência facilmente impressionável com os seus faustosos truques de ótica e arrastadas panorâmicas. Por muito inegável que seja a sumptuosidade captada, ou para sermos mais justos, recriada no fundo pelos especialistas da computação gráfica, esse é o único aspeto que tem a oferecer: uma espécie de camada ou película superficial sobre os temas e eventos das suas obras, em particular no género ‘sci-fi’ (foi aí que se moveram as suas três últimas realizações), que de “obra” têm pouco e subsistem apenas ao sabor da eficácia do efeito. Na sua filmografia, continuamos a preferir olhar para aquilo que fez em “Raptadas” (2013) ou “Sicario - Infiltrado” (2015), onde explorou, de modo mais profundo, ou digamos, sem tretas e raspando até ao osso, o negrume, a contradição e os dilemas éticos das suas figuras humanas e obscuras, usualmente movidas por questões de vingança e traumas do passado. Há uma genealogia a que Villeneuve não esconde querer pertencer – e as referências óbvias são Lucas, Spielberg, Lynch, senão mesmo Lean ou Kurosawa. Herança para a qual não teve ainda definitivamente unhas ou talento e de que se afasta tanto quanto se vai aproximando do comparsa Christopher Nolan (é conhecida a admiração que nutrem entre ambos). Por agora, a metade inicial de “Duna” que retrata a queda da casa de Atreides confunde-se com a queda de Villeneuve na armadilha do formalismo digital: algo que mais do que tornar este filme mau ou fraco, o torna triste e aborrecido.

Pontuação: ⭐⭐

 

“Duna” de Denis Villeneuve pode ser visto nas salas CinemaCity de Leiria, CinePlace de Leiria – LeiriaShopping e Caldas da Rainha – La Vie Shopping. 

 

Veja também

16 Maio, 2022
Em 2009, no ano em que se celebrava o 10º aniversário da morte de Amália Rodrigues, os músicos Nuno Gonçalves e Sónia Tavares (The Gift), Fernando Ribeiro (Moonspell) e Paulo Praça...
08 Abril, 2022
Numa primeira leitura, este seu nupérrimo e conceptual Dois Quartetos Sobre o Mar reavivou-me a faculdade de já conhecer as virtualidades musicais de Mário Barreiros desde pequenino, nomeadamente...
05 Fevereiro, 2022
Entrou-me, de repente, pelo e-mail adentro: Almanzor Jazz Fest. Almanzor. Jazz. Fest. Qual ataque inimigo que chega no breu da noite, inesperadamente, sem que estejas a contar....