Onde passear
Reino de Ourém: de Fátima ao Agroal
Carla Veríssimo

Para te agradar com sabores, saberes e sentires de um Roteiro Imersivo da Rede Cultura 2027, eis-me aqui, tua escrivã! Vem daí ao reino de Ourém: de Fátima ao Agroal!

19 Junho, 2021

Reino de Ourém: de Fátima ao Agroal

Santuário de Fátima.

Integro o grupo de curiosos e sedentos de passeios turísticos. Recebe-nos Deolinda Silva e Sérgio Francisco, da Câmara Municipal de Ourém.

Joel Marques, de sorriso simpático, abre as portas do mini-autocarro.

 

É cedo na manhã quando os meus olhos vertem as lágrimas do dia.

Num local onde “A imagem” é literalmente sagrada, comoveu-me “a” imagem de uma avó de joelhos, avançando na passadeira das promessas com um neto nos braços.

Aquele ser tão pequenino teria já sofrido tanto? Seria o cumprir por ter nascido bem e de saúde?

Naquela fracção de segundo o meu cérebro questionou tantas coisas que ficaram sem resposta.

E os meus passos avançaram entre a fria aragem e o céu cinzento.

A bióloga que há em mim deteve-se perante a exuberância da Azinheira Grande.

Quantas vozes e quantas almas presenciara já aquela árvore centenária?

Quantos acontecimentos impregnados nas suas raízes e naquela copa frondosa?

Isabel Carreira, a nossa guia no Santuário, entusiasta e conhecedora, embala-nos nas suas doces palavras, revela histórias e segredos.

O mosaico em terracota invade os nossos corações de luz e de esperança, num amarelo-ouro que é mistério e santidade. Aqueles 10 metros de altura e 50 de largura, moldados manualmente, por artistas de oito nações e quatro Igrejas cristãs, ditam o início de um dia em beleza, comunhão e amor.

Estamos na Basílica da Santíssima Trindade.
Entre ela, a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e a Capelinha das Aparições a peregrinação foi curta, mas intensa.

Voltando ao sorriso simpático do Joel e ao mini-autocarro.

A estrada entre Fátima e Ourém deixa avistar azinheiras, vinhas, oliveiras, montes e vales – terrenos férteis, palco outrora de conquistas históricas, reinos, cavalos e castelos.

Ouves o metal de escudos, machados, espadas, lanças, arcos e alabardas?

Eu prefiro esquecer as lutas medievais e abrir os olhos.

As invasões são agora nos meus sentidos e as terras reguengas deixam adivinhar a povoação de outrora - farta de cereais, vinho, azeite e peixe nas ribeiras.

Avisto eiras antigas e imagino descamisadas, cantares, gentes da aldeia, sábias, de idade; imagino partilha, sorrisos, histórias e vinho. Sempre o vinho!

Imagino tardes de poesia. Poesia na Eira - PoEira! E estarei lá, um dia destes. Acredita!

E com todo o meu arsenal!

Nisto, chegamos à vila erguida sobre a montanha.

O dia continua frio e o céu cinzento, mas Isabel Costa, vereadora da Cultura, acolhe-nos bem e aguça-nos o apetite. Imortalizamos o momento noutra imagem: a fotografia de grupo - tal qual casamento. E tu, prometes vir?!

Isabel Costa segue o seu caminho e nós entramos na Igreja da Colegiada.

Fundada por D. Afonso Henriques, é mandada remodelar e ampliar pelo Conde D. Afonso (4.º conde de Ourém), em 1445. Destruída na sua quase totalidade pelo terramoto de 1755, resiste a parte posterior da abside e a cripta - sala subterrânea sob a Capela-Mor, onde se respira a influência florentina, por entre mísulas piramidais invertidas.

Se a tua boca resistir ao cântico e à acústica, fecha-a como um túmulo e deixa descansar D. Afonso, no calcário estremenho do seu moimento requintado, envolto em motivos vegetalistas.

Entre o Gótico e o Barroco, esta viagem - no tempo e na arte - deixa-te “sentires”, que nem um terramoto consegue abalar.

Cumpre a tua promessa e volta ao nascer do dia, quando a luz do sol entra pelas duas pequenas frestas e incide directamente sobre a arca tumular.

Queres mais iluminação?

 

De pés bem assentes nas pedras da calçada, continua pela vila acastelada, numa Auren Velha, esculpida no pelourinho, abundante na ucharia e incrustada na judiaria.

Da vila medieval desce à cidade de hoje.

Recebe-te um Artur Oliveira Santos, pintado em destaque, na lateral da Casa que habitou.

O latoeiro, escritor, jornalista e um dos fundadores da Casa de Ourém, em Lisboa, foi Administrador de Ourém.

A Casa do Administrador é hoje Museu Municipal, onde és recebido pela sua família e os 3 Pastorinhos, numa exposição virtual, visual, interactiva e tão sensorial que quase ouves os risos das crianças.

E se tens alguma lá em casa, leva-lhe uma recordação da Fatoys - fazem brinquedos e jogos em madeira natural, alguns deles recurso educativo na reeducação da dislexia e baseados nas pedagogias Waldorf e Montessori.

E se Ourém é essa Princesa apaixonada, cativo ficas tu aos seus encantos.

Principalmente gastronómicos!

Vamos às entradas?!

Chouriço assado, queijos, pão, broa e morcela de arroz - da cor da farinheira! Sim, leste bem. Não leva sangue. É deliciosa!

Não provámos as tradicionais sopas de verde, outrora prato principal nos casamentos, mas deliciámo-nos com a sopa à lavrador e o carneiro cozido com batata e couve.

À mesa, comemos a História e as histórias. Sentimos a entrega, a dedicação e a sabedoria das gentes que nos recebem. Sentimos a sua paixão pelo território que habitam.

Para sobremesa: arroz doce, salada de fruta e duas fatias de bolo do arco. Queres forma mais saborosa de seguir viagem?

Seja ao Restaurante e Snack Bar Marques, ao Talho Marques (sei que não vais resistir a comprar chouriço e morcela de arroz!), à Queijaria Flor do Campo ou ao Sonho Meu: Volta sempre!

Até porque o Teatro Municipal de Ourém foi remodelado e, à falta de motivos, espectáculos não faltarão! A reabertura é já a 2 de junho. Música, dança, teatro, performances, instalações artísticas e artes visuais: uma programação intensa, até 31 de julho. Porque depois entra agosto!

Voltando ao Roteiro.

Faz a digestão na praia fluvial do Agroal.

Ali, onde Ourém e Tomar se unem por uma ponte, só faltou a concertina e o garrafão, como antigamente!

A água é gelada, como toda a gente sabe, mas dizem que é terapêutica.

Afinal viemos mergulhar, certo?!

Além disso podes aquecer ao caminhar no novo passadiço. Liga a praia ao Parque Natureza do Agroal e está quase pronto!

Aprecia a vegetação, os sons das aves, ouve o rio, sente as rochas, inspira fundo, renova-te. Tens bateria para mais uns tempos!

Despede-te com um brinde!

A Auren, à D. Mécia, à Colegiada, às Colinas de Fátima e ao Conde de Ourém!

Seja tinto, branco ou rosé, é sempre Divinis!

A antiga Cooperativa, hoje Adega de Ourém, recebe-te de garrafas abertas: as dos vinhos e azeites que comercializa.

De entre todos - mais do que no palato - sente na alma o “Abadia dos Tomarães”, esse Vinho Medieval de Ourém, único no mundo, que continua a ser feito à mão, por agricultores que aprenderam e perpetuaram os métodos que lhes ensinaram os Monges de Cister.

Quem veio de Alcobaça?!

Ainda bem que a prova foi só ao final da tarde e que o Joel é que leva o autocarro!

Este é apenas um ponto de partida. Invade tu agora o restante território: Aljustrel, Ortiga, Amieira, Urqueira, Valinhos, Olival, Soutaria, a Rota dos Pastorinhos, a Rota Carmelita,
os Caminhos de Fátima e claro: Os castelos! Sim, os Ourienses chamam ao Castelo: “Os castelos”, provavelmente devido às suas torres e torreões.

Cavalga veloz assim que as obras de requalificação terminem e as muralhas te acolham novamente.

Escrevam-se livros! Tais quais os de Carmen Zita Ferreira - a Ouriense com livros de poesia e infanto-juvenis publicados, alguns no Plano Nacional de Leitura.

Ah, e na hora de dizeres o “Sim”, faz a festa na Quinta de S. Gens e deixa os teus convidados deslumbrados!

Ourém – Auren - Orem! Ora para teres tempo para descobrir estes 30 anos de cidade em 800 anos de História.

Neste Roteiro Imersivo: Eis aqui a minha fotografia de paisagem!

Faça-se em ti o click.

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