Palcos
Um martelinho do amor no coração
Carla Veríssimo

O texto que se segue é um espectáculo! Feito de nomes, de pessoas, de coragem e de amor. La Serva Padrona foi um acto de coragem de toda uma orquestra de pessoas.

31 Agosto, 2021

Um martelinho do amor no coração

Primeiro Intermezzo

[Ária]

Estou metida numa embrulhada. Tenho algo no coração, que por mim não sei dizer, se é amor ou vontade de escrever!

Fim do Primeiro Intermezzo

Segundo Intermezzo

O texto que se segue é um espectáculo!

Feito de nomes, de pessoas, de coragem e de amor.

La Serva Padrona foi um acto de coragem de toda uma orquestra de pessoas.

Sentada no balcão, os meus olhos viram muito além dos 3 cantores em palco e os meus ouvidos absorveram cada som de violinos, violas, contrabaixo, cravo e violoncelo.

Na orquestra de pessoas esteve Natacha Costa Pereira, na cenografia; Virgílio da Silva Coelho, na construção de cenário; Rosário Balbi, na construção de figurinos; Nuno Braz de Oliveira, como figurinista; Fátima Sousa e Maria Marques Coelho, na caracterização; Zeca Iglésias, no desenho de luz; Pedro Lopes, Josefina Alcaide, Luciana Cruz, Raquel Cravino, Tomás Soares, Maria João Matos, Frederico Lourenço, André Araújo, Gabriela Barros, César Gonçalves, Marta Vicente e Jenny Silvestre, enquanto músicos de La Nave Va; Carla Caramujo, como Soprano; Luís Rodrigues e João Merino, como Barítonos; Carlos Antunes, na encenação, tradução do libreto e legendagem; Vera Santos, na projeção de legendagem; António Carrilho, enquanto director musical, e estes últimos, na revisão da edição a partir do libreto original e do manuscrito.

Assim de repente, 25 nomes. 25 pessoas!

Além delas, houve empregadas de limpeza, assistentes de sala e técnicos de som. Colaboradores do Cine-Teatro de Alcobaça, da Ó Produções e da Banda de Alcobaça, associação de artes organizadora do Cistermúsica - que numa programação intensa e imensa, cruza música clássica com outros géneros musicais, dança, videomapping, fotografia e performance, fazendo do palco um património de nomes, que nos permitem embarcar nas caravelas e navegar bem além DA IBÉRIA AOS NOVOS TEMPOS.

E é precisamente nestes novos tempos que os artistas se têm visto forçados a abandonar os seus palcos e os seus públicos.

Poder, pois, voltar a derrubar a quarta parede e fazer com que a plateia se envolva emocionalmente com cantores, músicos, figurinos e cenário, foi e é sem dúvida: um acto de coragem!

Aplausos! Muitos aplausos e de pé!

Que - nesta ópera e em todos os espectáculos - vejas bem mais do que 3 cantores em palco.

E não te levantes do lugar sem perceber que há toda uma equipa que faz arte por amor e sempre para ti: público - Ali, sentadinho, a usufruir de tudo e tanto, que tantos nomes fazem, todos os dias, pela cultura no nosso país; nos nossos palcos. Para que na plateia, mais Carlas, Pedros, Renatas, Patrícias, Ruis, Anas ou Claras possam continuar a assistir - confortavelmente sentados nas suas cadeiras - a espectáculos assim, feitos de nomes e de pessoas. Feitos de amor.

É de teias imbricadas como esta que nascem obras como esta.

[Recitativo]

E se para isto foi necessário um elenco de 3 cantores em palco, é preciso recuar 348 anos para encontrar os 3 protagonistas de toda esta ópera e sem os quais eu não estaria aqui.

Sim, foi preciso que Siena visse nascer, em 1673, Iacopo Angelo Nelli, que escreve a obra de teatro; foi preciso que Antonio Federico Gennaro, em 1731, a publicasse em libreto, e que Giovanni Battista Pergolesi, a compusesse!

E que privilégio poder estar sentada a ver e ouvir um intermezzo tão antigo e que se perpetuou no tempo. Grazie mille ai signori Nelli, Gennaro e Pergolesi!

Fim do Segundo Intermezzo

[Dueto extra]

Faz um chocolate quente e senta-te confortável. A ópera vai começar!

Shh… Shh… Serpina assim o quer.

Oh, se quer!

Senti nela irreverência, força e capacidade de dizer: BASTA!

Um BASTA!, tal qual entoam todos os artistas da plataforma “Unidos pelo Presente e Futuro da Cultura em Portugal”.

Senti em Serpina a mulher que quebra toda uma tradição e supremacia do homem sobre a mulher e do patrão sobre a criada.

Basta pensares que toda a criada é sempre uma mulher, uma senhora - e deve ser respeitada por isso.

Que seria das “senhoras” - essa palavra tão usada para patroa - se não fossem as suas criadas?

Que seria dos senhores? Que seria de ti?

Em Serpina vi uma mulher que, independentemente de ser criada ou não, não se deixa espezinhar ou maltratar; uma mulher que se insurge e reivindica respeito, tolerância e mais do que isso: Amor!

Havendo quem sinta nela um sentido de oportunidade ou uma vingança, eu vi astúcia, garra, perseverança, e uma interpretação fortíssima de Carla Caramujo, que no ondular dos seus caracóis negros nos embala e faz sonhar.

Mas antes de Serpina - e do alto do seu escadote -, Natacha Costa Pereira, com o seu macacão azul garrido, começa logo por prender a minha atenção.

 

O cenário está montado e os bastidores estão à vista – propositadamente!

Carlos Antunes soube mostrar bem esse mundo real e lindíssimo, que, normalmente, está por detrás de um espectáculo. Ali, vi deambularem figurinistas, caracterizadoras e cantores, numa construção a nu, de um espetáculo a dialogar com o seu resultado.

João Merino, como Vespone ou Capitão Tempesta, com o seu sapateado, os seus olhos a piscar e a revirar, o seu bigode desajeitado e o seu jeito cómico, não precisou de palavras para dizer muito! E quando a voz de barítono se fez, finalmente, ouvir, entoou graves italianos e fez-me sentir bem o ta-pa-tá do martelinho do amor!

Certo, certo é que os 3 cantores e o ensemble barroco La Nave Va me levaram numa viagem pelo tempo, ao sabor da música.

Os instrumentos e as vozes, os tons, as notas, as cordas e os acordes, acordaram-me!

E o meu coração vibrou sem idade.

Da plateia soaram risos, suspiros, silêncios e aplausos.

Partilho contigo a minha partitura!

Publique-se o libreto!

Um grande viva à Cultura!

 

Fim

Nota: A partir de agora, é expressamente proibido veres apenas 3 pessoas em palco.

Desfruta e grava na tua memória: imagens, sons, nomes e pessoas. A coragem e o amor.

Consulta sempre esta minha Folha de Sala!

 

© Fotografias Cistermúsica 

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